Polícia aponta que pai de falso médico preso em SP também atuava ilegalmente e tinha ligação com o crime

Foto: Reprodução/TV Globo

O pai do falso médico Marcos Phelipe de Barros, preso nesta terça-feira (26), também exercia medicina ilegalmente e trabalhava para o crime organizado, segundo o secretário da Segurança Pública de São Paulo, Nico Gonçalves.

A informação foi divulgada durante coletiva sobre a Operação Hipócrates II, que investiga a atuação de dois homens suspeitos de se passarem por médicos no Hospital de Clínicas Jardim Helena, na Zona Leste da capital.

De acordo com a Polícia Civil, Marcos Phelipe utilizava documentos verdadeiros de um médico chamado Nicolas Joseph Della Matta para atuar na unidade hospitalar. A investigação aponta que ele e o segundo suspeito, Maike César Silva, foram responsáveis por cerca de 2.000 atendimentos em dois anos, com nove óbitos decorrentes de mau atendimento. Uma das mortes ocorreu em 2024.

Segundo o secretário, o pai de Marcos também atuava ilegalmente na área da saúde e mantinha ligação com o crime organizado. A polícia, no entanto, não detalhou qual seria a participação dele em organizações criminosas nem informou se ele é alvo formal da investigação atual.

A defesa de Marcos Phelipe afirmou que ele é biomédico e negou que ele atuasse como médico. Os advogados também disseram que Maike César Silva - que está foragido - é instrumentador cirúrgico e que ambos poderiam trabalhar em ambiente hospitalar. A defesa classificou a operação como “midiática e injusta”.

As apurações começaram após denúncias de irregularidades em atendimentos realizados no hospital em dezembro do ano passado.

Em um dos casos citados pelos investigadores, uma paciente diagnosticada com dengue sofreu uma parada cardíaca durante atendimento. Segundo a polícia, os suspeitos não souberam realizar manobras básicas de reanimação.

"Eles não sabiam como proceder. Ela passou a ficar em uma situação delicada até que ela teve uma parada cardíaca, e eles não sabiam como ressuscitar. É uma manobra muito simples para uma pessoa com conhecimento técnico realizar", afirmou o delegado José Mariano Filho, responsável pela investigação.

Outro caso envolve uma mulher com problemas cardíacos. De acordo com o delegado, um laudo do Instituto Médico Legal (IML) concluiu que um erro de procedimento causou a morte da paciente após ela permanecer cerca de oito horas sem realizar um exame que identificaria um aneurisma na aorta.

Omissão do hospital

As investigações também miram a possível omissão da direção do hospital. Segundo Mariano Filho, os suspeitos recebiam salários inferiores aos dos demais médicos da unidade, o que levantou suspeitas para a polícia.

“O pagamento que era realizado para esses falsos médicos era diferenciado, a menor. Por que alguém aceitaria ser remunerado a menor? Essa é uma das características”, disse o delegado.

Segundo a Polícia Civil, a direção do hospital já havia sido alertada sobre a atuação dos falsos médicos em dezembro do ano passado. A Justiça ainda determinou o afastamento da gestora do hospital e diretor clínico da unidade.

Na avaliação do secretário de Segurança Pública, o delegado Nico Gonçalves, o hospital tem responsabilidade no caso, pois a direção deveria investigar o currículo dos profissionais antes de contratá-los.

O que diz o Cremesp

Abaixo, leia a íntegra da nota do Cremesp sobre o falso médico:

"O Cremesp informa que o exercício ilegal da Medicina é um caso de polícia, uma vez que a atuação do Conselho se limita a profissionais médicos registrados na Autarquia.

O Cremesp, quando identifica, por exemplo, durante fiscalização, que há profissionais se passando por médicos, ou quando o Conselho percebe tentativas de registro com apresentação de documentos falsos, como diplomas, aciona os órgãos competentes, como o Ministério Público e a Polícia.

Cabe ressaltar que o Conselho disponibiliza o Guia Médico em seu site, para que empresas médicas e pacientes possam checar se o profissional que o está atendendo é médico e está com registro regular no conselho. Caso a empresa contratante tenha dúvidas em relação ao profissional mesmo após consulta pública ao Guia, ela deverá entrar em contato com o Cremesp pelos canais oficiais."

O que diz o hospital

Em nota, o hospital informou que ele e sua diretoria "vêm a público repudiar, de forma veemente, quaisquer ilações ou acusações de conluio com a atuação dos indivíduos investigados no âmbito da Operação Hipócrates 2".

"A instituição esclarece que foi surpreendida, em junho de 2025, por informações prestadas por autoridades policiais acerca da falsidade ideológica atribuída a um dos dois indivíduos acusados como falsos médicos, no contexto de ação destinada ao cumprimento de mandados de prisão. Registra-se que, na data da operação, os referidos indivíduos não se encontravam nas dependências do hospital.

Tão logo tomou ciência dos fatos, a direção do hospital apresentou registro de Boletim de Ocorrência no 22º Distrito Policial (São Miguel Paulista), em 9 de junho de 2025, e proativamente disponibilizou às autoridades competentes a documentação relacionada aos investigados. Em paralelo, a direção do Hospital iniciou sindicância interna para apuração dos fatos.

Assim como já reportado em diferentes estabelecimentos médicos e em variadas regiões do Brasil, o hospital foi mais uma vítima da atitude ilegal de indivíduos que atuam irregularmente na profissão médica.

Ressalta-se que os indivíduos em questão não integravam o quadro funcional direto da instituição. A contratação ocorreu por intermédio da empresa VHN Clínica Médica Ltda. para a prestação de serviços médicos de pronto socorro, seleção e recrutamento, tendo a responsabilidade de realizar a validação documental dos profissionais prestadores de serviços médicos.

Adicionalmente, o Hospital Jardim Helena esclarece informação incorreta divulgada acerca de sua estrutura administrativa: o médico Fábio Neves não exerce, nem exerceu a função de diretor do hospital. O referido profissional é responsável pela empresa terceirizada (VHN) e não representa o hospital. Diante dos fatos, o hospital deu início à implementação de medidas adicionais de governança e controle, em parceria com empresa especializada em soluções tecnológicas, com o objetivo de mitigar riscos e prevenir a ocorrência de fraudes dessa natureza.

Com 51 anos de atuação, o Hospital Jardim Helena reitera que permanece à disposição das autoridades competentes, colaborando de boa-fé com as investigações, e reafirma seu compromisso permanente com a legalidade, a ética, a transparência e a segurança assistencial."


Fonte: G1