Após queda no Mundial, Coreia do Sul enfrenta onda de ameaças e críticas

Foto: Reprodção

"A questão no futebol - a questão importante no futebol - é que não se trata apenas de futebol"

O escritor britânico Terry Pratchett tinha razão sobre "o belo jogo" quando escreveu estas linhas no romance da série Discworld "Unseen Academicals". E há quem esteja a levá-lo longe de mais.

Enquanto a Alemanha lambe as feridas depois de falhar no desempate por penáltis e alguns adeptos neerlandeses enfrentam investigações policiais por insultos racistas dirigidos aos jogadores que falharam os seus remates da marca dos onze metros, as reacções à eliminação da Coreia do Sul ameaçam lançar ainda mais descrédito sobre a cultura do futebol.

Caso não tenha acompanhado todas as equipas que vão ficando pelo caminho no Mundial, a Coreia do Sul foi eliminada após a fase de grupos. A campanha começou com uma promissora vitória por 2-1 sobre a República Checa, mas entrou depois em queda livre: perdeu por 1-0 com o México e, ao perder por 1-0 com a África do Sul, falhou o apuramento para a fase a eliminar.

"Lamento sinceramente", disse no domingo o antigo futebolista e selecionador Hong Myung-bo, antes de apresentar a demissão como treinador da Coreia do Sul. "Mesmo deixando a seleção nacional, não estou a abandonar o futebol coreano. Vou apoiar a equipa nacional com toda a minha alma e espero que a equipa volte a ser merecedora da confiança e do carinho do povo."

A seleção sul-coreana já tinha ficado pelo caminho na fase de grupos dos Mundiais de 2006, 2014 e 2018, e Hong Myung-bo foi o capitão da equipa que alcançou o melhor resultado de sempre no torneio de 2002, ao terminar em quarto lugar.

Mas esses tempos de glória ficaram para trás e o pedido de desculpas não foi aceite pelos adeptos. Nem pelo Presidente sul-coreano, Lee Jae Myung, que publicou nas redes sociais uma declaração invulgar em que dizia sentir "profunda desilusão".

"Quando o favoritismo e o compadrio se sobrepõem à competência na escolha de um comandante, o resultado é tão previsível como o fogo a consumir papel", escreveu. "Apresento as minhas mais sinceras desculpas ao público pela profunda desilusão provocada por este resultado inaceitável. Vamos avançar rapidamente com a reforma da administração do desporto, para garantir que nada semelhante volte a acontecer."

Mas não ficou por aqui.

A claque oficial da seleção, os Red Devils, divulgou um comunicado a exigir que Hong "se ajoelhe perante toda a nação e abandone para sempre o mundo do futebol".

À chegada a Seul, foi recebido com vaias de adeptos furiosos, obrigando a polícia a montar um cordão desde o interior do terminal do aeroporto até ao autocarro que o aguardava no exterior.

"O futebol sul-coreano morreu", lia-se num dos cartazes exibidos por adeptos no Aeroporto Internacional de Incheon.

Também surgiram ameaças de morte. Segundo o Korea JoongAng Daily, no fim de semana apareceu numa comunidade online uma publicação intitulada "Assumo a responsabilidade e mato Hong Myung-bo". O autor escreveu: "No dia em que ele regressar, vou ao Aeroporto Internacional de Incheon e mato Hong Myung-bo."

A polícia estará a acompanhar a situação de perto.

A imprensa local noticia ainda que restaurantes e bares estão a proibir a entrada de Hong, com avisos nas portas a dizer: "Proibida a entrada a Hong Myung-bo".

Para explicar esta animosidade profunda – sem justificar quaisquer ameaças de violência –, Hong tem sido uma figura muito contestada desde 2024, ano em que voltou a assumir o comando da seleção, depois de se ter demitido em 2014. O regresso foi marcado pela polémica: muitos adeptos criticaram a escolha e apontaram o dedo ao favoritismo, vendo nos dirigentes do comité da Federação de Futebol da Coreia (KFA) responsáveis que entregaram o lugar a um amigo.

Nada ajudou a sua causa, este ano, a decisão de deixar de fora o capitão veterano e antigo jogador do Tottenham Hotspur, Son Heung-min, no jogo com a África do Sul, em que a Coreia do Sul precisava apenas de um empate para seguir em frente.

"Não posso dizer que todas as decisões tenham sido as corretas, mas posso garantir que tomei cada uma delas a pensar no futebol coreano", afirmou Hong.

Um responsável da Agência Metropolitana da Polícia de Seul confirmou que se estão a multiplicar as investigações sobre alegadas interferências do presidente da KFA na nomeação de Hong, e que aumenta o descontentamento público com a falta de transparência no processo de seleção.

Nunca se trata apenas de futebol.


Fonte MSN