Em uma longa entrevista exclusiva concedida à ESPN, que será publicada na íntegra nos próximos dias, o ex-dono da SAF do Botafogo, John Textor, saiu em defesa do técnico Franclim Carvalho.
A conversa com a reportagem aconteceu na noite da última terça-feira (18), horas antes do Glorioso comunicar a demissão do treinador português, que vinha na corda bamba após os resultados recentes: derrotas por 6 a 1 para Cienciano, pela CONMEBOL Sul-Americana, e 1 a 0 para o Vitória, pelo Campeonato Brasileiro.
Para Textor, que contratou Franclim em um de seus últimos atos como gestor antes de ser afastado pelo Tribunal Arbitral, mandar o comandante embora seria um "erro", já que, na visão do norte-americana, ele foi um dos grandes responsáveis pelo "melhor ano da história do clube" em 2024, atuando como auxiliar de Artur Jorge.
"O que eu vou te dizer agora não vai melhorar minha popularidade com a torcida, mas o que vou te garantir é que demitir o Franclim é um erro. Eu gostaria de começar falando um pouco sobre quem ele é. Franclim é absolutamente uma das grandes mentes da comissão técnica que ganhou os campeonatos do melhor ano da história do Botafogo. Ele era uma peça incrível da comissão do Artur Jorge.", iniciou.
"O Franclim ajudava o Artur a tomar decisões dentro do jogo, a fazer substituições, ele comandava os treinos. O método da comissão era compartilhado, eles trabalharam juntos por muito tempo e confiavam um no outro. Se você é um torcedor que não gostou que o Artur Jorge foi embora, então você não deveria ter um problema com o Franclim. Essa é a questão número um", seguiu.
"Eu acredito que o Franclim merece mais respeito. Eu me sinto mal pelo fato dos torcedores do Botafogo estarem sendo tão emocionalmente afetados que eles perdem a noção de como ele é um cara forte como pessoa, de como ele é um treinador forte e como ele contribuiu para a gente ter o melhor ano da história", acrescentou.
Textor também culpou o Botafogo Social por "bloquear dinheiro", causar transfer bans e complicar a contratação de reforços, o que deixou o elenco fragilizado nas mãos de Franclim Carvalho.
"Ele [Franclim] recebeu uma mão de pôquer muito ruim esse ano... O Botafogo Social vem bloqueando dinheiro, e acabou que o técnico que teve que lidar com esse ambiente de transfer bans. Mesmo com as quantias incríveis de dinheiro que a gente fica ouvindo que a SAF vai conseguir de caras como o 'Arcanjo Gabriel' [Gabriel de Alba, da GDA Luma], nós não estamos comprando os jogadores que precisamos para as posições corretas", bradou.
"Estamos usando um elenco extremamente jovem. O Franclim teve que jogar um longo período sem suas estrelas, principalmente o Danilo, que não estava jogando antes da parada para a Copa do Mundo. E, mesmo com tudo isso, se você olhar as últimas partidas, a equipe jogou bem em muitos momentos. É claro que o Botafogo sofreu em alguns jogos, mas, há alguns dias, ele ganhou do Cruzeiro e do 'ex-chefe' dele, o nosso campeão Artur Jorge. O Franclim jogou muito bem contra o Fluminense, mesmo com um elenco reduzido", opinou.
Em seguida, o empresário norte-americano culpou diretamente o atual gestor da SAF, Eduardo Iglesias, pelo vexame sofrido contra o Cienciano.
Para Textor, o Botafogo teria que ter aprendido com os erros esportivos do passado e viajado antes para conseguir se aclimatar à altitude de Cusco.
O ex-gestor, inclusive, salientou que teria traçado um plano completamente diferente e criticou Iglesias, afirmando que o dirigente comanda o clube como uma "criança".
"E aí teve o jogo no Peru (contra o Cienciano)... Você olha para esse cara, esse Eduardo (Iglesias, diretor da SAF do Botafogo), e ele nunca dirigiu um clube de futebol na vida, ele nunca comandou um negócio, e aí ele virou o 'novo John Textor'. A decisão de quando o time viajou ao Peru foi dele. Ele deveria ter ouvido o treinador, ouvido a diretoria esportiva. Se você é o chefe, você deve ter esse aprendizado institucional, com tudo o que aprendemos com a derrota que sofremos para a LDU em Quito, das partidas que perdemos na altitude, do sofrimento que tivemos contra o Nacional Potosí. Todo esse aprendizado institucional teria que ter levado a um plano diferente para jogar na altitude (contra o Cienciano, em Cusco)", salientou.
"Eu vou te dizer uma coisa: se eu fosse presidente do clube e tivesse feito o plano (de viagem a Cusco), a gente teria vencido a partida no Peru. A gente estava caminhando para um planejamento em que iríamos enviar os atletas antes para se prepararem na altitude. A gente ia fazer uma inversão no calendário e ir muito cedo para lá, de forma que eles teriam chance de se aclimatarem na altitude. Aí, os atletas conseguiriam lidar não só com o Mal de Altura, mas também com a questão do condicionamento físico. Depois, na partida em casa no Nílton Santos, eles voltam 'supercarregados' de oxigênio", observou.
"Eu sei que parece algo radical, mas a gente estava caminhando nessa direção, por todo o conhecimento institucional que a gente tinha e pela continuidade que queríamos. Nosso calendário era perfeito. A gente tinha um jogo em casa em 26 de julho, tínhamos todo o tempo do mundo. A gente poderia ter mandado o time para a altitude e treinado lá. A gente mandava os jogadores, mandava as esposas, e depois trazia o elenco de volta para enfrentar o Fluminense. Quando a gente voltasse ao Peru, a gente ia massacrar aquele time [Cienciano]. Mas não há continuidade nenhuma, não há conhecimento institucional aplicado, não há liderança nenhuma, porque você tem uma criança comandando o Botafogo", disparou.
Por fim, o magnata afirmou que Franclim foi "jogado debaixo do ônibus" e "abandonado aos abutres" pela diretoria do Botafogo, que deveria ter "protegido" o português, na sua visão.
Novamente, ele reforçou que não demitiria o treinador, pois considera que o time vai se arrepender da decisão no futuro.
"[Eduardo Iglesias] É um cara que não sabe se comunicar com o treinador e com a diretoria esportiva para chegar a um consenso. Essas decisões difíceis têm que ser tomadas pelo dono. Então, ver a culpa pelo jogo mais vergonhoso da nossa história cair apenas no pés do treinador... Isso não é liderança! O comando do clube deveria estar protegendo o treinador, e não o jogando debaixo do ônibus", pontuou.
"Então, em resumo: eu não demitiria o Franclim, pois seu trabalho é bom. Ele nos trouxe títulos ao lado do Artur Jorge. Quando você perde jogos, como aconteceu no Peru, você perde como time, como instituição. Você não perde jogos como pessoa. E, quando o Botafogo perdeu aquele jogo, o Eduardo (Iglesias) deveria ter aparecido, o JP [João Paulo Magalhães, presidente do Botafogo Social] deveria ter aparecido, o (Carlos Augusto) Montenegro deveria ter aparecido... Você não pode abandonar o treinador aos abutres", continuou.
"O Franclim será um grande treinador em outro lugar se for demitido, e é por isso que seria um erro a demissão", finalizou.
Fonte: ESPN
Foto: Vitor Silva/Botafogo
