Maior resistência no armazenamento vira exigência para soja destinada à China

Foto: Wenderson Araujo/CNA

Ao mesmo tempo em que faz planos para reduzir a dependência das importações de grãos, a China sinaliza ao Brasil a demanda por uma soja que vá além de volume e preço. A principal preocupação dos chineses é reduzir o risco de deterioração da commodity durante o armazenamento e transporte. Algumas dessas demandas foram relatadas a empresas brasileiras de sementes que estiveram na China, no início de agosto, a convite da DBN Biotech, empresa chinesa que se prepara para entrar no mercado brasileiro de biotecnologia de soja transgênica.

Principal parceiro comercial do agronegócio brasileiro, a China foi o destino de quase 80% das exportações de soja do Brasil em 2025 - segundo a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), foram 87,1 milhões de toneladas no ano passado. Dada a dimensão desse mercado, mudanças nos padrões exigidos pelo comprador chinês podem repercutir em toda a cadeia brasileira, da produção e armazenagem ao desenvolvimento de novas variedades.

A demanda por uma mudança nas características dessa soja está relacionada à logística de exportação até a China. Os navios saem do Brasil a partir de junho, após o encerramento da colheita, período de inverno no Hemisfério Sul. Mas uma boa parte da viagem é feita no Hemisfério Norte, onde as embarcações enfrentam o clima úmido do verão. O trajeto leva cerca de 30 dias, o que pode favorecer a deterioração, o aquecimento e o crescimento de fungos. Por isso, uma das expectativas das tradings é adquirir um produto que suporte melhor essas condições de transporte.

Essa preocupação foi manifestada a um grupo de empresas brasileiras do segmento de sementes, que esteve na China no início de agosto a convite da DBN Biotech. A comitiva participou de uma reunião em Pequim com a direção da Cofco, maior empresa estatal de alimentos da China e uma das maiores tradings de commodities agrícolas do mundo. Representantes do grupo brasileiro informaram que o encontro foi uma oportunidade importante para ouvir diretamente um dos principais elos entre a produção brasileira e o consumidor chinês.

"Seria, na prática, um produto in natura com maior shelf life (vida útil). Isso é possível, já percebemos em outras culturas, como o tomate longa vida, por exemplo", afirma o representante de uma empresa de melhoramento.

Essa mesma fonte ressalta que, no caso dos Estados Unidos - principal concorrente do Brasil no mercado global da soja -, a vantagem é que o transporte do grão é feito durante o inverno no Hemisfério Norte.

Em março deste ano, a China apertou o controle sobre a soja brasileira, passando a exigir controles fitossanitários mais rigorosos sobre as cargas provenientes do Brasil. A medida se deu após autoridades chinesas identificarem problemas em carregamentos, como a presença de insetos vivos, grãos com resíduos de defensivos e danos causados pelo calor. Na ocasião, o Ministério da Agricultura brasileiro intensificou as inspeções sobre a soja destinada à China.

Um ponto importante, segundo um dos participantes do encontro, foi a discussão sobre a redução do padrão de umidade da soja, de 14% para 13%. De acordo com esse interlocutor, essa redução traz benefícios importantes do ponto de vista da qualidade, principalmente pela maior estabilidade e longevidade do produto durante a armazenagem e o transporte.

No entanto, a mudança traria impacto para o produtor rural brasileiro, uma vez que a alteração de um ponto percentual representa menor peso comercializado e pode exigir adequações nos processos de secagem e armazenagem.

"Esse é um tema que merece bastante atenção dos produtores brasileiros. As grandes tradings estão discutindo essa pauta e, caso haja uma mudança efetiva do padrão comercial, o impacto econômico deverá ser cuidadosamente avaliado e discutido ao longo de toda a cadeia", avalia.

"Melhorar a qualidade é importante, mas o custo dessa mudança não pode simplesmente ser transferido para o produtor", afirmou o interlocutor.

A opinião é compartilhada por outras fontes do setor. "Se você tem um grande cliente, que representa grande parte do seu mercado, é importante escutar as suas demandas", afirma o presidente da Associação dos Multiplicadores de Semente de Soja do Brasil (Amssoja), André Schwening.

No entanto, ele defende que a discussão deve levar em conta também o impacto nas margens do agricultor, que já vêm de um ciclo de queda. O dirigente acrescenta ainda que o teor de umidade já é alvo de discussão entre entidades do setor no Brasil.

A expectativa de melhora na qualidade da soja, incluindo pureza e concentração de óleo e proteína, também é compartilhada por empresas que se preparam para entrar no mercado brasileiro de biotecnologia agrícola.

"A expectativa deles [chineses] é que essa concentração não diminua, principalmente a de proteína, e idealmente que a concentração de óleo aumente um pouco", afirma o representante de uma empresa com atuação no Brasil, que esteve na China no início de agosto a convite da DBN.

"Mas sabemos que isso é uma qualidade inversamente proporcional: se aumenta a proteína, diminui o óleo e vice-versa", pondera. No entanto, segundo essa fonte, a edição gênica pode fazer com que seja possível atender à concentração de proteína e óleo desejada pelas empresas chinesas.


Fonte: Globo Rural