Neste 15 de setembro, data em que o Brasil celebra sua independência e também o aniversário de instituições e clubes que marcaram época, relembrar os 82 anos do primeiro combate da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália é resgatar um dos capítulos mais importantes da história nacional. Foi em 15 de setembro de 1944 que os brasileiros entraram oficialmente em combate no vale do rio Serchio, ao norte de Lucca, dando início a uma campanha que se estenderia por oito meses e mudaria para sempre a imagem do país no cenário internacional.
As primeiras vitórias da FEB vieram já em setembro, com as tomadas de Massarosa, Camaiore e Monte Prano. Só no final de outubro, na região de Barga, os brasileiros sofreram seus primeiros reveses. Devido ao sucesso da campanha em setembro e início de outubro, no final de novembro a FEB foi incumbida de sozinha tomar o complexo formado pelos montes Castello, Belvedere e seus arredores, no espaço de alguns dias. Seu comandante alertou ao comando do V Exército estadunidense que tal missão era inviável de ser executada pelo efetivo de apenas uma divisão, o que já havia sido demonstrado em tentativas fracassadas por parte de outros efetivos aliados, e que para obter sucesso em tal empreitada seria necessário o ataque conjunto de duas divisões simultaneamente à Belvedere, Della Torraccia, Monte Castello e à Castelnuovo. No entanto, o argumento do comandante brasileiro só foi aceito após o fracasso de mais duas tentativas, desta vez efetuadas pelos brasileiros, uma em novembro e outra em dezembro.
Durante o rigoroso inverno entre 1944 e 1945, nos Apeninos, a FEB enfrentou temperaturas de até vinte graus negativos, sem contar a sensação térmica. Muita neve, umidade e contínuos ataques de caráter exploratório por parte do inimigo, que através de pequenas escaramuças procurava tanto minar a resistência física quanto a psicológica das tropas brasileiras, não acostumadas às baixas temperaturas. Condições climáticas e reações físicas se somavam aos mais de três meses de campanha ininterrupta, sem pausa para recuperação. Testou-se ainda possíveis pontos fracos no setor ocupado pelos brasileiros para uma contra-ofensiva no inverno.
Entretanto, neste aspecto, a atitude involuntariamente agressiva das duas tentativas de tomar Monte Castelo no final de 1944, somada à atitude voluntária de responder às incursões exploratórias do inimigo no território ocupado pela FEB, com incursões exploratórias da FEB realizadas em território inimigo, fez com que os alemães e seus aliados escolhessem outro setor da frente italiana, ocupada pela 92ª Divisão estadunidense, para sua contra-ofensiva.
Entre o fim de fevereiro e meados de março de 1945, como havia sugerido o comandante da FEB, se deu a Operação Encore, um avanço em conjunto com a recém-chegada 10ª Divisão de Montanha estadunidense. Assim, foram finalmente tomados, entre outras posições, por parte dos brasileiros, Monte Castelo e Castelnuovo, enquanto os americanos tomavam Belvedere e Della Torraccia. Com estas posições em poder dos Aliados, pôde-se iniciar a ofensiva final de primavera, na qual em abril a FEB tomou Montese e Collecchio. A conquista destas posições pela divisão brasileira e pela divisão de montanha estadunidense neste setor secundário, mas vital, possibilitou que as forças sob o comando do VIII Exército britânico, mais a leste no setor principal da frente italiana, se vissem finalmente livres do pesado e constante fogo de artilharia inimiga, que partia daqueles pontos, podendo assim avançar sobre Bolonha ultrapassando as linhas de defesa nazi-fascistas no norte da Itália, a chamada Linha Gótica, após oito meses de combate.
Na segunda semana de abril iniciou-se a fase final da ofensiva de primavera com o intuito de romper definitivamente esta linha de defesas, que recuara mas impedia o avanço das tropas aliadas na Itália rumo à Europa Central desde setembro do ano anterior. No setor do IV Corpo do V Exército americano, ao qual a FEB estava incorporada, no primeiro dia da ofensiva, após sem grandes dificuldades ter sustado o ataque aliado principal naquele setor, efetuado pela 10ª Divisão de Montanha americana, causando expressivas baixas naquela unidade estadunidense, os alemães cometeram um erro ao considerar o ataque brasileiro à Montese — que no mesmo utilizou seus carros de combate M8 e tanques Sherman M4 — como sendo o principal alvo aliado naquele setor. Tendo por conta disso disparado somente contra a FEB cerca de 1.800 tiros de artilharia (64% do total dos 2.800 tiros empregados contra todas as quatro divisões aliadas naquele setor da frente italiana), nos dias de luta que se seguiram pela posse daquela localidade, no que foi o combate mais sangrento travado pela FEB.
Com a fracassada tentativa alemã de retomar Montese e o consequente avanço das tropas da 10ª Divisão de Montanha e 1ª Divisão Blindada estadunidenses, efetivou-se o desmoronamento das defesas germânicas naquele setor central, do ponto de vista geográfico, embora secundário estrategicamente, ficando clara a impossibilidade por parte das tropas alemãs de manterem a partir daquele momento a Linha Gótica, tanto no setor terciário a oeste, próximo ao Mar da Ligúria, quanto no setor principal a leste, próximo ao Mar Adriático.
Ao final daquele mês, em Fornovo di Taro, numa manobra perfeita em uma jogada ousada de seu comandante, os efetivos da FEB que se encontravam naquela região em inferioridade numérica cercaram e, após combates oriundos da infrutífera tentativa de rompimento do cerco por parte do inimigo seguidos de rápida negociação, obtiveram a rendição de duas divisões: a 148ª Divisão de Infantaria alemã, comandada pelo General Otto Fretter-Pico, e os efetivos remanescentes da Divisão Bersaglieri italiana, comandada pelo General Mario Carloni. Isso impediu que essas unidades, que se retiravam da região de La Spezia e Gênova, se unissem às forças ítalo-alemãs da Ligúria, que as esperavam para desfechar um contra-ataque contra as forças do V Exército americano, que avançavam de forma rápida, porém difusa e descoordenada, inclusive do apoio aéreo, tendo deixado vários clarões em sua ala esquerda e na retaguarda. Muitas pontes ao longo do rio Pó foram deixadas intactas pelas forças nazi-fascistas com esse intento.
O comando dos exércitos alemães, que já se encontrava em negociações de paz em Caserta há alguns dias com o comando Aliado na Itália, esperava com isso obter um triunfo a fim de conseguir melhores condições para rendição. Os acontecimentos em Fornovo di Taro involuntariamente impediram a execução de tal plano tanto pelo desfalque de tropas quanto pelo atraso causado, o que, aliado às notícias da morte de Hitler e à tomada final de Berlim pelas forças do Exército Vermelho, não deixou ao comando alemão outra opção senão aceitar a rápida rendição de suas tropas na Itália. Em sua arrancada final, a FEB ainda chegou à cidade de Turim e, em 2 de maio de 1945, na cidade de Susa, fez junção com as tropas francesas na fronteira franco-italiana.
O Brasil perdeu nesta campanha cerca de 450 praças e 13 oficiais mortos diretamente em combate, além de oito oficiais-pilotos da Força Aérea Brasileira. A divisão brasileira ainda teve cerca de duas mil mortes devido a ferimentos de combate e mais de doze mil baixas em campanha por mutilação ou outras diversas causas que os incapacitaram para a continuidade no combate. Tendo assim, somadas as substituições, turnos e rodízios, dos cerca de vinte e cinco mil homens enviados, mais de vinte e dois mil participado das ações. O que, incluso mortos e incapacitados, deu uma média de 1,7 homens usados para cada posto de combate, um grau de aproveitamento apreciável se comparado a outras divisões que estiveram o mesmo tempo em campanha em condições semelhantes.
Ao final da campanha, a FEB havia aprisionado mais de vinte mil soldados inimigos — 14.779 só em Fornovo di Taro —, oitenta canhões, mil e quinhentas viaturas e quatro mil cavalos. Segundo o historiador norte-americano Frank McCann, o Brasil foi convidado a integrar a força de ocupação da Áustria.
Em 6 de junho de 1945, o Ministério da Guerra do Brasil ordenou que as unidades da FEB ainda na Itália se subordinassem ao comandante da 1ª Região Militar, sediada na cidade do Rio de Janeiro, o que, em última análise, significava a dissolução do contingente. Mesmo com sua desmobilização relâmpago, o regresso da FEB após o final da guerra contra o fascismo precipitou a queda de Getúlio Vargas e o fim do Estado Novo no Brasil.
Em 1960, as cinzas dos brasileiros mortos na campanha da Itália foram transladadas de Pistoia para o Brasil, e hoje jazem no monumento aos mortos que foi erguido no Aterro do Flamengo, zona sul da cidade do Rio de Janeiro, em homenagem e lembrança aos sacrifícios dos mesmos.
Neste 15 de setembro, 82 anos após aquele primeiro combate no vale do Serchio, a memória da FEB permanece viva. Os pracinhas simbolizam a participação efetiva do Brasil no maior conflito que a humanidade já travou e representam valores como coragem, disciplina, sacrifício, patriotismo e defesa da liberdade. A cobra fumou, e seu legado é eterno.
Fonte: Catve
Foto: Divulgação
