Nova tecnologia usa inteligência artificial para classificar soja mais rapidamente

Foto: Wenderson Araujo/CNA

Embora a soja seja o carro-chefe do agronegócio brasileiro, sua classificação, etapa essencial principalmente para a exportação do grão, ainda depende de uma avaliação bastante manual e subjetiva. Para reduzir a imprecisão e dar agilidade ao processo, a Brasil Agritest desenvolve uma tecnologia que automatiza esse trabalho, e que está em fase final de testes antes de ser comercializada.

Thomas Martins Ceglia e Lucas Solarewicz, fundadores da agtech, tiveram a ideia após uma visita à Embrapa Instrumentação em 2018, para conhecer técnicas desenvolvidas pela instituição. À época, os empreendedores também procuraram Debora Milori, coordenadora do Laboratório Nacional de Agro-fotônica (LANAF) e da Unidade Embrapii Itech-Agro, em São Carlos. Eles buscavam uma solução que combinasse técnicas de manipulação e detecção da luz, visão computacional e inteligência artificial para reduzir a subjetividade do processo.

Ceglia conta que a capacidade do LANAF de detectar parâmetros invisíveis ao olho humano chamou sua atenção. A partir daí, sua equipe começou a desenvolver um equipamento capaz de entregar laudos “padronizados, imparciais e objetivos” em um tempo muito menor que o da classificação humana, segundo ele.

O projeto envolveu investimentos de R$ 4 milhões para desenvolver os parâmetros de análise autônoma do sistema chamado Grain Analytic System (Gras). O primeiro protótipo foi desenvolvido na própria Embrapa e, depois, levado a ambientes reais para validação.

Em uma amostra com muitos defeitos, um classificador humano pode levar até uma hora e meia para fazer sua análise. Hoje, o equipamento realiza o procedimento em até quatro minutos, independentemente da qualidade da soja.

Segundo Ceglia, classificadores costumam trabalhar com cerca de 50 gramas e, mesmo assim, analisam apenas parte dos grãos. Já o equipamento analisa os grãos individualmente por meio de iluminação especial, câmeras e inteligência artificial. A tecnologia também amplia a representatividade da análise: o Gras consegue avaliar 100% de uma amostra de até 140 gramas. “Com isso, a gente traz uma representatividade muito maior”, afirma.

Outra diferença está na capacidade de identificar alterações internas. Enquanto o classificador precisa cortar o grão para visualizar alguns defeitos, o equipamento consegue captar informações físico-químicas de sua composição. “O que não é perceptível ao olho humano é perceptível para o equipamento”, diz.

Segundo o empreendedor, o uso do Gras reduz a subjetividade na classificação e, consequentemente, dirime eventuais conflitos na comercialização da soja, já que a avaliação impacta na precificação. Além disso, a tecnologia reduz a possibilidade de desvios de conduta. “Você impossibilita que uma pessoa maquie ou falsifique algum resultado”, afirma.

Segundo a pesquisadora Debora Milori, ainda é preciso aprimorar a tecnologia para a detecção de classes de defeitos. “O equipamento ainda está em desenvolvimento, e é na prática que vamos aperfeiçoando”, explica.

A equipe também já mira outros grãos. O plano é consolidar a tecnologia para a soja e avançar para o milho. “Quando você muda da soja para o milho, é outro aprendizado, é outro desafio”, afirma.

Ela aposta nas cooperativas para democratizar a tecnologia. “As cooperativas têm um papel extremamente importante dentro desse processo de levar ao pequeno produtor as tecnologias de última geração que possam beneficiá-los.”


Fonte: Globo Rural