Respostas absurdas no exame de CNH acendem alerta, sobre formação de condutores no Brasil

 Respostas absurdas no exame de CNH acendem alerta, sobre formação de condutores no Brasil

Foto: CGN

O Governo Federal decidiu acabar com a obrigatoriedade de autoescola para quem deseja tirar a Carteira Nacional de Habilitação. A promessa é facilitar o acesso, reduzir custos e “modernizar” o processo. Mas, ao se debruçar sobre o conteúdo do Banco Nacional de Questões, documento oficial que deve balizar a prova teórica da CNH, a pergunta que surge não é sobre modernização — é sobre banalização.

O que está em jogo não é apenas uma mudança burocrática. É o nível mínimo de exigência para colocar milhões de novos condutores nas ruas.

Basta folhear o banco de perguntas para perceber o tom. A maior parte das 110 questões está classificada como “Fácil”. E não é força de expressão. São perguntas cuja resposta parece saída de um manual infantil de boas maneiras no trânsito.

Exemplo

“Ao ver a placa de ‘Área Escolar’, o que o motorista deve fazer?”
Resposta correta: “Reduzir a velocidade e redobrar a atenção com crianças e pedestres.”

Até aí, tudo bem. O problema está nas alternativas incorretas oferecidas como opção real de prova:

  • “Seguir na mesma velocidade, já que é uma rua comum.”
  • “Buzinar para avisar os pedestres.”
  • “Acelerar para passar antes do sinal vermelho.”

Não se trata de testar conhecimento técnico. Trata-se de verificar se o candidato sabe que não deve atropelar crianças.

Outro exemplo, classificado como “Intermediário”:

*“Ao virar à direita ou à esquerda, qual atitude básica?”
Resposta correta: “Sinalizar a manobra antes de virar.”

As alternativas erradas incluem:

  • “Virar em alta velocidade.”
  • “Parar sobre a faixa de pedestres.”
  • “Buzinar e entrar sem olhar.”

É difícil imaginar um adulto funcional escolhendo deliberadamente “buzinar e entrar sem olhar” como prática recomendada. Se essa é a régua, estamos discutindo um exame que mede obviedades, não preparo.

Há ainda questões que soam quase didáticas demais:

“A placa ‘PARE’ exige que o motorista:”
Resposta correta: “Faça parada total e só siga após garantir segurança.”

Entre as opções erradas:

  • “Avance se tiver prioridade.”
  • “Pare apenas se houver pedestres.”

Ou então:

“Ao ver a placa com uma buzina cortada por faixa vermelha, o condutor deve entender que:”

Resposta correta: “É proibido usar buzina ou qualquer sinal sonoro no local.”

Alternativa incorreta:

  • “O uso da buzina é obrigatório.”

Obrigatório buzinar onde a placa proíbe buzinar. É esse o nível de armadilha intelectual oferecido ao futuro motorista brasileiro.

O argumento de que a prova precisa ser acessível não pode ser confundido com infantilização do conteúdo. Direção envolve leitura complexa de cenários, tomada de decisão sob pressão, compreensão de hierarquia normativa e responsabilidade civil e penal. No entanto, o banco dedica boa parte de suas questões a identificar o óbvio.

A impressão é que o exame se aproxima mais de um teste de alfabetização visual do que de avaliação de competência para conduzir um veículo em um país com índices elevados de sinistros.

Num contexto em que o próprio governo flexibiliza a exigência de formação formal em autoescola, o rigor da prova teórica se tornaria ainda mais essencial. Se o treinamento deixa de ser obrigatório, o exame deveria elevar o nível de cobrança. O que se vê, no entanto, é o oposto: perguntas elementares, alternativas caricatas e ausência de cenários que realmente desafiem raciocínio.

O trânsito brasileiro não é simples. Ele envolve motociclistas entre corredores, ciclistas, ônibus articulados, vias mal sinalizadas, chuvas intensas, estradas rurais precárias. A formação de condutores não pode ser tratada como um jogo de “marque a opção menos absurda”.

A CNH não é um diploma simbólico. É autorização para conduzir uma máquina de uma tonelada em meio a pessoas. Se o processo de habilitação passa a prescindir de autoescola e se ancora em um banco de questões que pergunta se é permitido “buzinar para os pedestres correrem”, o debate deixa de ser técnico e passa a ser de responsabilidade pública.

Facilitar acesso é legítimo. Simplificar o conhecimento necessário para dirigir, não.

Porque no fim, quem paga a conta de uma formação rasa não é o candidato reprovado. É a sociedade inteira, nas ruas.

Fonte: CGN

Redação DV Agora

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